quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Emaranhada ...

Foto retirada de www.olhares.com
Sinto-me doente ... o coração dói-me, a alma dói-me ... só me apetece chorar ... sinto-me emaranhada nesta minha vida sem saída ... sinto-me presa à família ... sinto-me presa a problemas que eu não consigo solucionar .... porque não dependem de mim ... acho que estou a enlouquecer ... a dar em doida ... sinto-me só ... acho que ninguém gosta de mim, que ninguém me ama ... o amor não é mera palavra, é acções ... e apesar de tudo tenho que manter a máscara para mostrar que tudo está bem ... para a minha filha, para a minha mãe ... mas sinto-a a cair ... cair ... e a partir-se .... no chão ...
Não consigo suportar mais os fardos das mágoas, das dores, da raiva, do ódio que tens transformado o amor ou a paixão que sentia por ti ... cada vez a vida se torna um fardo, um peso cada vez mais pesado para mim ... acho que estou a enlouquecer ... talvez ... mas não são os loucos que dizem as verdades?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Quando te sentes só ....




Sabes ... quando mesmo rodeado de pessoas te sentes só, profundamente só? Quando quem está ao teu lado só te aborrece, chateia, magoa ...???
Quando tens alguém ao teu lado que não te preenche como ser humano, não te preenche a alma e acha que o carinho que pedes é sempre demais?
Sabes que quando te deitas ao seu lado, desejarias que fosse Outro que lá estivesse?

Quando era adolescente ... sentia-me só ... muito só ... com poucos amigos ... sem paciência para namorados, quase sem familia ... passados vinte anos ... casada, com filhos ... contínuo a sentir o mesmo ...esta solidão enorme no meu coração ... contínuo a chorar como chorava sobre a minha almofada todas as noites ... Quando nos sentimos sós não sei se alguma vez algo ou alguém nos conseguirá preencher essa solidão ...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O imaginário ...

O imaginário é uma caixinha de surpresas que todos trazemos dentro de nós, uma caixinha de música onde as melodias da infância vão saindo com a bailarina sempre a rodar ... e a música faz-nos sonhar, faz-nos recordar, levar a mente, a alma para países infinitos, para reinos onde tudo e todos são felizes, onde o mundo não é a preto e branco ...mas colorido ... e onde estamos em paz ...

Quando era criança gostava de sonhar, imaginar, criar histórias e fantasias ... escrevia, sonhava ... mas a verdade é que encerrei durante muito tempo este meu mundo imaginário num cofre forte e deixei-o abandonado ... aos poucos tenho vindo a abri-lo ... devagar e vejo que tenho tanto para escrever o que vem à minha mente ... mas não sei porque tenho medo de não conseguir escrever tudo ... talvez porque esteja doente e sinta que o meu pobre coração me está a atraiçoar e tenho medo ... medo de não realizar os meus sonhos, de não ver a minha filha crescer, de não dar o melhor de mim, de não conseguir amar quem amo de verdade, de não receber carinho de quem quero e gosto ...

Sinto-me às vezes como se tivesse o dobro da minha idade e visse o fim da vida ... não sei porque sinto isto, não sei ... mas é o que sinto em mim... sinto-me triste, sozinha, traída por quem eu pensava gostar de mim... Será que fiz assim tanto mal a alguém?


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os amigos são como uma luz ...


Os amigos são como uma luz , uma lamparina que vai iluminando o nosso caminho, que nos vão dando esperanças, sorrisos, carinhos, afagos, consolos de alma e de coração ...
Temos momentos na nossa vida, que esquecemos e perdemos o contacto com aqueles que partilharam a sua infância connosco; que saltaram a primeira vez à macaca, saltaram à corda, ao elástico ... choraram porque cairam na rua porque brincavam às escondidas, porque tiraram Mau na prova de Matemática, com quem partilhámos os nossos primeiros amores ....
Perdemos os nossos amigos de adolescência com quem vimos os primeiros livros picantes, vimos os filmes mais ousados, bebemos a primeira amêndoa amarga, fumámos o primeiro cigarro, saímos a primeira vez à noite, contámos o nosso primeiro beijo, a primeira carícia mais íntima ...
Crescemos ... fomos para a Faculdade fizemos novos amigos com quem partilhámos poemas, livros, confidências, paixões, noites de borga, de prazer, de extâse, de limite ... em que já nada era real nem tão pouco a nossa existência ... mas esse tempo terminou e cada um rumou para o seu ponto do país ... cada um começou a sua vida profissional, casou, foi mãe e pai ... e começou outro ciclo da sua vida ... mas neste embaraço, neste novela da vida ... esqueceu-se que não basta apenas a família para nos dar momentos de felicidade, para nos compreender, para ter uma visão diferente ... e quando damos por nós estamos sós ... carregamos fardos enormes nas nossas costas e acabamos por não ter ninguém com quem partilhar, com quem falar ... alguém que nos possa ouvir sem emitir opiniões ou fazer juízos de valor ... alguém que está ao nosso lado, nos dá a mão, o ombro se for preciso ... que gosta incondicionalmente de nós, independentemente de tudo o resto ...
Mas como estamos tão sós e desprotegidos, às vezes caímos nas emboscadas e quem pensamos ser nosso amigo não é ... temos grandes desilusões, choramos, gritamos, sentimos uma ferida enorme no nosso coração que teima em não sarar... sabemos que fomos traídos ... mas depois da queda, levantamo-nos e seguimos caminho ... e encontramos novos amigos e damos mais valor aquele que tinhamos no passado e que nos avisou ... e que nos deu a sua mão ...
A verdade é que com amigos de verdade, sinceros, puros de coração ... a nossa vida torna-se mais bela, mais bonita, mais fácil ... os verdadeiros amigos são a luz, a candeia que ilumina o nosso caminho, que nos fazem sorrir...
(Este post é dedicado aos meus verdadeiros amigos ... vocês sabem quem são ... gosto, adoro, amo-vos do fundo do meu coração, da minha alma ... são pouquinhos mas valem tudo o que existe!)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Tenho medo ...

Foto retirada de http://olhares.aeiou.pt , autoria de VanessaDesigner
Quantas vezes, desde miúda farta da vida, desejava a morte, pensava no suicídio e achava que o fim era a única solução. Tenho dias que estou tão triste , em que choro e que peço a Deus que me tire deste mundo, dias em que nada para mim faz sentido ... em que a infelicidade é o sinónimo de vida. Mas pensamos na morte como algo fácil, como se por um truque de magia tudo desaparecesse, como se entrássemos num túnel longínquo em que a luz estaria lá no fundo, como se do outro lado estivesse o paraíso... mas o fim da vida não é m truque de magia ... e por mais infeliz que eu possa estar a minha filha precisa de mim, da sua mãe, da sua amiga e confidente. Ela sabe que é comigo que pode falar das tontices da escola, dos ídolos, das parvoíces que eu pouco a censuro, rio-me com ela e ainda lhe digo piadas ...Na segunda-feira realmente tive medo, eu que dizia que não tinha medo do fim, tive medo do sofrimento, da dor, de quanto pode chegar o limite humano, tive medo de ser um fardo para os outros, uma carga, a coitadinha ... realmente senti medo e senti cada vez mais a debilidade da circunstância humana, quão fracos e débeis somos ao sofrimento, à dor, ao fim e nós que às vezes que pensamos que somos tanto, que temos tanto .. que somos super-homens e super-mulheres. Eu que tenho a mania que consigo chegar a todas as capelinhas, que dou tudo e recebo tão pouco ... Tive medo ... tenho medo ... senti-me mortal pela primeira vez ... frágil, sensível, sofredora, limitada, finita ....

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sentou-se ao meu lado ...

Ontem , tive a pior das sensações da minha vida, parecia que a morte se tinha sentado a meu lado naquela estação de comboios, entrei no comboio e a viagem que fiz de hora e meia pareceu-me a última viagem da minha vida ... senti-me tão mal, julguei que não chegaria a porto seguro ... tive medo, rezei para Deus me ajudar, para me dar força ... o comboio parou a meio Meu Deus, nunca mais chegava ... mas lá consegui chegar ... Fui para o hospital, não estava nada bem ... sei que tenho que mudar a minha vida ... senão o colapso acontecerá inevitavelmente ...

sábado, 15 de novembro de 2008

O meu anjo

Nestes últimos tempos voltei a ter aquelas ideias estranhas, voltei a sentir esta angústia atroz dentro de mim, voltei a soltar as lágrimas, a chorar, a escrever compulsivamente para aliviar a minha dor, aquele fundo que está na minha alma, no meu coração ...

Quando acordo de madrugada, já nem paciência tenho para escolher a roupa, o calçado, a maquilhagem ... ligo apenas o piloto automático da minha mente e sigo ... sigo viagem ... vou trabalhar ... nem quero saber ...

o meu corpo está lá, mas o meu pensamento não ... sei que estou longe ... bem longe daqui e dali ... de tudo e de todos ... sei que as minhas aulas tem sido estranhas ... sei que tenho falado muito em utopia, em vida, em morte, em sonho, em decisões, em liberdade, no destino ... olho para os meus alunos e sei que eles sentem que eu não estou bem ... sei que eles sabem que eu quero dizer-lhes algo com tudo aquilo que lhes falo, talvez por isso me digam que sou especial ... (sou apenas uma mulher, apenas isso).

Mas ontem assustei-me ... comecei a sentir coisas estranhas no meu corpo, sei que não consigo dormir, sei que bebo demasiados cafés, sei que ando acelerada ... e talvez por isso ... ontem vi o meu anjo ... vi-o a olhar para mim ... e a chorar ... sei o que ele me dizia ... para ter cuidado comigo ... para me cuidar ...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Incompletude

Quando és uma mulher do pensamento, estás habituada a falar muito de ideias, de ideais, de espírito há determinadas coisas que para ti são "clichés" e achas que, por vezes, mais vale falar de prazer e de corporiedade para esqueceres um pouco daquilo que falas todos os dias. Olhas para o teu passado e vês as alturas em que pensavas na morte, no suicídio e que nada fazia sentido ... eras ateia ... pensavas que Deus era um mito ou mais uma personagem de uma série bem elaborada de Banda Desenhada, quase por desespero agarraste-te a Ele, talvez para não te matares , talvez para não cometeres aquelas loucuras que te vinham à cabeça. Quando O conheceste choraste muito, muito ... a dor imensa que havia dentro de ti precisava de ser expurgada, liberta ... prometeste a ti mesma que seria em prol dos outros que serias feliz, prometeste a ti mesma que farias o bem, darias pão a quem tivesse fome, levarias água a quem tivesse sede, estenderias as tuas mãos a quem precisasse de ajuda, os teus braços a quem necessitasse de um abraço ... querias despojar-te de ti mesma, dos teus bens, de ti mesma para te dares aos outros de forma desinteressada e gratuita ... porém não tiveste coragem ... porém o desejo da carne, do prazer começou a chamar-te de uma forma forte e não aguentaste o voto de castidade que te pediam ... afastaste-te e andaste a conhecer o outro lado da vida, do sensível, da carne, do prazer e do desejo ... mas isso nunca te completou ... às vezes, o alcóol era o teu refúgio, às vezes o cigarro fazia com que o teu pensamento deambulasse como o fumo, mas na realidade sabias que te faltava algo ... no amor e no companheirismo procuraste quem te desse prazer e estabilidade, Deus não te o deu, mas o homem também não ... Cresceste, amadureceste e tentaste esquecer-te, esquecer com o trabalho, com as preocupações diárias ... mas quando estavas só ... sabias da tua condição, da tua incompletude, da tua tristeza, da tua procura ... sempre achaste que era uma quimera, afinal és uma mulher do pensamento ...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sem saber ...

Foto retirada do site www.olhares.com

Quando julgamos que já tinhámos vivido tudo, em que a nossa vida vai seguindo o curso normal, mesmo sabendo no nosso íntimo que não é nem por sombras aquilo que desejávamos, a vida prega-nos partidas e o nosso coração brincalhão , traiçoeiro que é acaba por nos fazer umas surpresas incómodas. Achamos que já não há nada de novo para viver e damos por nós a sentir emoções, ardores no peito, batimentos fortes, acabamos por ter pensamentos que começam a assaltar a nossa mente de repente ... a vida prega-nos partidas que não queremos acreditar, sentimos no nosso peito aquilo que sentiamos aos 18 anos quando nos apaixonavamos. No entanto, temos mais vinte anos em cima e nem tudo é assim tão fácil como era naquele tempo. Lutamos contra um sentimento que não queríamos sentir, mas há coisas que são mais fortes que nós; há sentires que não podemos apenas descartar e esquecer ... o coração continua a pulsar todos os dias, o pensamento foge e não o conseguimos apanhar ... Viver entre a emoção e a razão, gerir o que vai dentro de nós, compartimentar sentimentos, emoções, vivências, encantamentos, partilhas de vida ... nem tudo na vida é 1 +1 = 2; nem tudo é lógico, nem tudo é racional ... era bom que fosse ... mas quando pensamos que nada nem ninguém nos pode atraiçoar ... é o nosso próprio coração que nos atraiçoa, é a nossa própria alma que nos puxa para onde não queremos ir, mas sabemos que é ali o nosso lugar ... às vezes sinto-me perdida, às vezes choro, às vezes sinto-me só mesmo estando acompanhada ... porque há uma cisão dentro de mim ... o meu corpo e minha razão ama uma pessoa; a minha alma e o meu coração outra ... nunca acreditei em almas gêmeas, nem tão pouco no amor platónico ... mas o que sinto em mim é um amor espiritual tão grande que por mais que queira esquecê-lo não consigo, por mais que queira ficar indiferente não posso ... ele levou a minha alma, prendeu-a sem saber ... sem saber ... tocou na parte mais bela que alguém pode tocar ... na pureza da minha alma ... e nem se apercebeu disso e nem sabe disso ...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A cereja em cima do bolo

Foto retirada de http://olhares.aeiou.pt/

Existem momentos na nossa vida, que pensamos que estão a ser divinais, sublimes que melhor não poderão ser ... mas quando vemos com atenção há sempre um pequeno senão, há sempre algo a apontar ... julgamos então ser demasiado perfeccionistas, exigentes demais para com os outros, para connosco mesmos ...
Momentos perfeitos ... ou imperfeitos ... momentos que julgamos estar a vivê-los, a presenciá-los de uma forma única para toda a vida; talvez, a sublimidade esteja também na imperfeição.
Quantas vezes, ao ouvir uma música, ao ler um poema, um romance, ao observar um paisagem as lágrimas caiem-me, o meu ser balbuciona porque sei que estou a viver um momento único ...
Quantas vezes, ao amar e ser amada, sei que vivo momentos sublimes, longe do mundo, da vida, da multidão em que comungo com o Mundo, o Universo, com Deus, ali mesmo ... no meu recanto ...
Quantas vezes, ao sentir que há um sentimento forte em mim e me entrego de corpo e alma, sem esperar nada em troca, incondicionalmente; quando dou o melhor de mim ... sei que vivo momentos únicos em que falta apenas "a cereja em cima do bolo".

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

As palavras

Foto retirada da net

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

domingo, 9 de novembro de 2008

Os olhos ....

Foto retirada da net

"O que me interessa nos olhos é que eles são uma parte do corpo que não envelhece." Derrida

sábado, 8 de novembro de 2008

Adeus

Imagem retirada da net


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
Eugénio de Andrade

Para que um encontro aconteça ...

Imagem retirada da net

«O encontro entre elas não foi nem agradável nem desagradável. Simplesmente não existiu.
Para que um encontro aconteça, duas pessoas têm de reunir-se num mesmo lugar e num mesmo espaço. E nenhuma das duas morava na mesma casa. Isabel continuava a viver em Espanha, Citlali em Tenochitlan. Se não havia forma de se dar o encontro, muito menos a comunicação. Nenhuma das duas falava a mesma língua. Nenhuma das duas se reconhecia nos olhos da outra. Nenhuma das duas trazia as mesmas paisagens no olhar. Nenhuma das duas percebia as palavras que a outra pronunciava. E não era uma questão de entendimento. Era uma questão do coração. É aí que as palavras adquirem o seu verdadeiro significado. E o coração de ambas estava fechado.
Por exemplo, para Isabel, Tlatelolco era um lugar sujo e cheio de índios, onde tinha forçosamente de ir abastecer-se e onde dificilmente encontraria açafrão e azeite. Em compensação, para Citlali, Tlatelolco era o lugar que mais gostava de visitar quando era menina. Não só porque lá se podia gozar de todo o tipo de cheiros, cores e sabores mas também porque podia saborear um espectáculo de rua surpreendente: um senhor, a quem todas as crianças chamavam Teo, mas cujo verdadeiro nome era Teocuicani (cantor divino), que costumava fazer dançar na palma da mão deuses de barro articulados. Os deuses falavam, lutavam e cantavam com voz de búzio, cascavel, pássaro, chuva ou trovão, emitida pelas prodigiosas cordas vocais deste homem. Não havia vez que Citlali ouvisse a palavra Tlatelolco que não lhe viessem à mente aquelas imagens, e não havia vez nenhuma que pronunciasse a palavra Espanha que uma cortina de indiferença não lhe cobrisse a alma. Precisamente ao contrário de Isabel, para quem a Espanha era o lugar mais belo do mundo e mais rico em significados. Era a verde erva onde se deitara uma infinidade de vezes a observar o céu, a brisa do mar que deslocava as nuvens até as lançar contra os altos cumes das montanhas. Era a brisa, o vinho, a música, os cavalos selvagens, o pão recém-tirado do forno, os lençóis estendidos ao sol, a solidão da planície, o silêncio. E foi nessa solidão e nesse silêncio, que se tornava mais profundo pelo barulho das ondas e das cigarras, que Isabel imaginou milhares de vezes Rodrigo, o seu amor ideal. A Espanha era o sol, o calor, o amor. Para Citlali, a Espanha era o lugar onde Rodrigo aprendera a matar.
A enorme diferença de significados enraizava na enorme diferença de experiências. Isabel tivera de viver em Tenochtitlan para saber o que quer dizer ahuehuetl. Para saber o que se sentia quando se descansava à sua sombra depois de ter realizado uma cerimónia em sua honra. Citlali teria de ter nascido em Espanha para saber o que significa mordiscar lentamente uma azeitona, sentada à sombra duma oliveira enquanto observava os rebanhos a pastar na pradaria. Isabel teria de ter crescido com uma tortilla na mão para que não a incomodasse o seu "húmido" odor. Citlali teria de ter sido amamentada sob os aromas do pão acabado de sair do forno para encontrar gosto no seu sabor.»

Laura ESQUIVEL, A Lei do Amor, 5ª edição, Porto,ed. Asa, 1998, pp. 22-23


sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Humildade



Fazer das coisas fracas um poema.


Uma árvore está quieta,

murcha, desprezada.

Mas se o poeta a levanta pelos cabelos

e lhe sopra os dedos,

ela volta a empertigar-se, renovada.

E tu, que não sabias o segredo,

perdes a vaidade.

Fora de ti há o mundo

e nele há tudo

que em ti não cabe.


Homem, até o barro tem poesia!

Olha as coisas com humildade.


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

As minhas unhas e eu ...

Foto de Ennoea

Sempre rói as unhas desde pequenita ... quando estava mais nervosa, distraída, a ver televisão, nas aulas ... aonde calhava ... acho que tinha herdado este costume do meu pai. Ficavam pequeníssimas, dóiam-me imenso, mas continuava a roer ... olhava para as unhas compridas das minhas amigas e achava horrível ... a minha mãe pintava-as de vermelho ... dizia-lhe que era pirosa .... via certas pessoas com as unhas enormes, todas partidas, sujas e sei lá ... achava nojento e preferia mil vezes ter as minhas unhitas minúsculas.

Já depois de começar a trabalhar a manicura insistia comigo que devia deixar crescer as unhas, mas a verdade é que lá colocava verniz transparente, punha um produto que se usava na farmácia, comia pastilhas e nada ... continuava a roer.

Quando casei lá me contive durante uns tempos para ir com as mãos apresentáveis e as unhitas lá cresceram um bocadinho. Mas durante a lua de mel ...desapareceram num instante!

Há quatro anos, ganhei coragem e deixei crescer as unhas, levava a vida na manicura para elas ficarem bonitas, pintava-as de pérola ou transparente e pouco mais. Mas como quem roeu as unhas a vida inteira, claro partiram-se com facilidade e aguentei apenas dois meses. Continuei resignada à unha miníma.

O ano passado com a moda das unhas de gel a minha manicura disse-me que deveria experimentar ... disse-lhe: "Vou pensar nisso ..." Por essa alturas, conheci algumas pessoas que usavam unhas de gel e realmente tinha sempre as unhas impecáveis e colocava-se qualquer anelito e fazia um enorme sucesso ... tanta me chatearam ... a manicura e essas pessoas que decidi colocar unhas de gel...

Como as minhas unhas quase não existiam ... coloquei extensões até as outras crescerem ... era uma verdadeira saga ...estava no banho, a extensão descolava ... começava aos berros, pegava num livro a extensão partia-se ficava histérica ... uma vez cheguei atrasada a um almoço porque perdi uma "unha" no banho ... fui a correr para a manicura ... depois ia com a mãozinha de fora do vidro do carro para secar ....

Depois destas peripécias, coloquei unhas de gel... e já lá vai um ano ... todos os meses mudo de cor, uma mais garrida que a outra (para quem dizia que vermelho era piroso), adoro a cor vermelha, ando um mês com as unhas impecáveis ... faço tudo em casa, as minhas unhas são o meu orgulho, as minhas alunas ficam maravilhadas com as unhas e quando mudo de cor, assim que entro na aula são as primeiras a notar!

Actualmente ... as minhas unhas são uma das minhas imagens de marca...

domingo, 2 de novembro de 2008

Tempo de pausa ...

Foto de Ennoea

Quando me sento ... para começar a minha viagem de todos os dias ... olho a paisagem, coloco o MP3, abro um livro para ler ou retiro umas folhas onde vou escrevinhando o que passa pelo pensamento ... olho lá fora a paisagem que passa bem rápido ... é o meu momento de pausa , um momento em que posso estar comigo, com a minha imaginação, com os meus pensamentos ...